Bala perdida leva até 3 crianças por mês ao IJF


O fenômeno urbano da violência também tem contribuído para o aumento do número de vítimas de bala perdida


Aos 10 anos de idade, o jovem M.B.P. voltava da escola quando foi surpreendido por uma troca de tiros. A bala atingiu a sua coluna FOTO: FABIANE DE PAULA

"Porque isso aconteceu comigo?". A pergunta é do garoto M.B.P., 10 anos, mais uma vítima de bala perdida na Capital. Deitado em uma cama do Instituto José Frota (IJF), o menino está quase inerte. O olhar perdido e o semblante de tristeza denotam seu desencanto com o mundo que, de forma imprevista, lhe roubou o direito à infância, à felicidade e à saúde, desde o dia 24 de outubro passado.

Na data, por volta das 17 horas, M.B.P. retornava do colégio para casa, no bairro Autran Nunes. Desavenças ou brigas entre traficantes de droga - a família nem sabe ao certo - provocaram uma troca de tiros. Uma das balas se instalou na coluna vertebral da criança que passava na calçada, o transformando em mais uma das vítimas de bala perdida em Fortaleza.

Esse tipo de ocorrência não é quantificada em pesquisa, mas, segundo enfermeiras do IJF, vem aumentando. Somente na Enfermaria Pediátrica, oscilam entre dois e três os registros ao mês. Já o jornal Diário do Nordeste publicou notícias relatando sete mortes por bala perdida, do começo do ano até agora.

A violência reinante na Cidade a transforma em um local totalmente inseguro, lembra a enfermeira Ana Célia Lima de Castro. "Todos são prejudicados com isso. Aqui nós recebemos crianças, mas o hospital tem pacientes de outras faixas etárias pelo mesmo problema", diz.

Já uma enfermeira, que pediu para não ser identificada, adiantou que a questão é preocupante. "Basta dizer que esses casos são, hoje, o segundo motivo de internamento na Pediatria, perdendo apenas para os acidentes domésticos, que chegam a ser a causa de cerca de sete internações ao mês no setor", disse.

A internação de pacientes por bala perdida é mais desoladora porque tem outra motivação constante. "No caso de crianças, às vezes até recém-nascidas, elas se tornam alvo de tiros porque os pais, principalmente o homem, têm usado os filhos como escudo durante as brigas com traficantes", informou. "Recentemente num bairro da periferia, ao ter sua casa invadida por traficantes, um homem tentou se proteger dos disparos com o corpo do filho ainda bebê", lembrou.

Já Ana Célia Lima ressaltou que as brigas entre casais prejudicam os filhos das mais diversas formas, "inclusive porque acontece de serem eles o alvo de um disparo feito, aleatoriamente, dentro de casa".

Quanto ao estado do menino M.B.P., Ana Célia Lima explicou que após ser atingido pelos disparos, ele foi levado ao IJF, onde ficou dias na UTI e foi submetido a uma laparoscopia exploradora, para se verificar como estava seu abdômen. "Ele sofreu um trauma na veia cava, ocasionando um acidente vascular", disse a enfermeira, explicando que depois de uma longa internação o paciente recebeu alta, há cinco dias. "A mãe foi orientada para continuar o tratamento, porém ele retornou há três dias em estado mais grave", citou, admitindo que a medicação prescrita, um anticoagulante, é cara, porém fundamental para evitar um problema vascular grave.

A irmã de M.B.P., que ontem era a sua acompanhante, Ana Maria Valdilene, frisou que a mãe era "um pouco desligada", por isso pode ter se descuidado do tratamento. Valdilene, 19 anos, comentou que o irmão costuma chorar por causa das dores pelo corpo e de tristeza. "Ele não entende porque o seu destino mudou dessa forma tão violenta", frisou, adiantando que o irmão mal consegue mexer os membros inferiores. "Parece que os médicos nem puderam tirar a bala da coluna dele", cita.

Insegurança

"Acho que estamos vivendo um tempo em que a dinâmica da cidade é mediada pela bala perdida, o que na verdade é uma grande metáfora", reflete a socióloga e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Glória Diógenes, ponderando que o perigo está em todo lugar, de tal forma que praticamente não é mais possível mapear os lugares os seguros e os inseguros.

MOZARLY ALMEIDA
REPÓRTER


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