Papa lembra que viveu momentos de ´águas turbulentas´ no Vaticano

Bento XVI demonstrou humildade e agradeceu a "compreensão e respeito" à decisão de renunciar ao cargo
Cidade do Vaticano. Uma passagem bíblica da barca de São Pedro no Mar da Galileia foi utilizada por Bento XVI para descrever os oito anos em que esteve à frente da Igreja. A voz que tremia em cinco línguas diferentes no último sermão poderia ser de uma pessoa frágil. Às vésperas de completar 86 anos, porém, o alemão terminou seu pontificado com mais uma mensagem de força.

Multidão se emociona com a despedida do papa Bento XVI. Ao aparecer pela última vez no papamóvel, ele foi ovacionado pelo público católico que tomou conta da área em frente à Basílica de São Pedro FOTO: REUTERS

Para Joseph Ratzinger, durante o período de pontificado, "as águas foram conturbadas e o vento soprou contra, como em toda a história da Igreja". Investido do cargo desde 19 de abril de 2005, Bento XVI fez ontem uma emocionada despedida. Ele relembrou momentos de "alegria e luz" de seu papado, mas também períodos de dificuldade, quando "parecia que Deus estava dormindo".

Uma multidão estimada em 150 mil pessoas, muitas com faixas nas quais se lia "Grazie" (obrigado em italiano) tomou a Praça de São Pedro para dar adeus e ouvir o último discurso do pontífice. Conforme anunciou no dia 11, sua renúncia entra em vigor às 20h de hoje (16h em Brasília).

Ao deixar o cargo, ele abre um período inédito de incertezas no Vaticano e expôs ao mundo os desafios mais íntimos da Igreja, mesmo que para isso tenha lançado mão de um gesto dramático não visto havia 600 anos. Durante o encontro com os fiéis, o papa agradeceu a seu rebanho estimado em 1,2 bilhão de seguidores por respeitar sua decisão de se aposentar.

Aplausos
Sentado em um trono cor de marfim, na escadaria da basílica de São Pedro, ele foi frequentemente interrompido por aplausos. Ao final do discurso, os fiéis e muitos cardeais se levantaram para ovacioná-lo.

O papa claramente apreciou a multidão e deu uma longa volta ao redor da praça em carro aberto, parando algumas vezes para beijar e abençoar crianças levadas a ele por seu secretário. No total, 70 cardeais participaram do evento.

No entanto o líder da Santa Sé foi embora rapidamente, dispensando a típica sessão de encontro com os fiéis que acontece após a audiência. O Vaticano alegou que simplesmente havia muitas pessoas que queriam dizer adeus ao pontífice.

Momento histórico
Tendo em vista o momento histórico, Bento XVI também mudou a agenda e não deu sua típica aula de catecismo de todas as quartas-feiras. Em vez disso, ele fez de sua última aparição pública na basílica de São Pedro algo pessoal, explicando mais uma vez a renúncia e pedindo que os fiéis rezem por seu sucessor.

"Amar a Igreja significa também ter a coragem de tomar decisões difíceis e dolorosas, sempre mantendo o bem da igreja em mente, e não o próprio", declarou ele. Após a última audiência geral, Bento XVI postou uma mensagem na rede social Twitter. "Queria que cada um sentisse a alegria de ser cristão, de ser amado por Deus, que entregou o Seu Filho por nós", disse ele, o primeiro papa a utilizar redes sociais para falar com os fiéis.

O papa explicou que decidiu se aposentar após perceber, aos 85 anos, que simplesmente não tinha mais "a força mental e corporal" para seguir adiante. "Eu tomei esta decisão com a completa compreensão de sua seriedade e da novidade da medida, mas com uma profunda serenidade em minha alma", declarou.

Bento XVI lembrou que o papa não tem privacidade. "Ele pertence sempre e para sempre a todos, a toda a Igreja", mas lembrou que a aposentadoria não vai significar a volta à vida privada, mas uma nova experiência de serviço à igreja por meio da oração. Ressaltou que, quando foi eleito papa, perguntou se Deus realmente queria aquilo. "É um grande peso que vocês colocaram sobre minhas costas", disse ele à época.

Apesar de ter declarado que houve "momentos que não foram fáceis", o papa declarou que nunca se sentiu sozinho, que Deus sempre o guiou e agradeceu a seus cardeais e colegas pelo apoio, "compreensão e respeito a esta importante decisão".

Elogios
Embora a renúncia tenha surpreendido muitos católicos e gerado preocupações sobre seu impacto numa Igreja dividida, a maioria dos fiéis presentes no Vaticano manifestava apoio e elogios a Bento XVI. Os que não conseguiram bons lugares, puderam ver as imagens em grandes telões instalados no local.

Hoje, Bento XVI reúne-se com os cardeais pela última vez e então seguirá de helicóptero à residência papal de Castelgandolfo, ao sul de Roma. No local, às 20h, as portas do palácio serão fechadas e a Guarda Suíça, o serviço que protege o chefe da Igreja, não mais fará a segurança de Bento XVI, que já será considerado o "papa emérito".

ANÁLISE
Esperança marca despedida do pontífice
As estações de metrô lotadas de policiais e outros profissionais de apoio explicitavam que aquela quarta-feira seria completamente atípica para os italianos. No caminho até o Vaticano, mais guardas se misturavam à massa de gente e idiomas que seguia para a Praça de São Pedro, local onde foi realizada a última audiência pública do papado de Bento XVI. 

A quantidade de pessoas não intimidou a segurança, que continuou rigorosa: só ia até a praça quem passasse por detectores de metal na entrada da cidade. A multidão tomou conta do local logo cedo e não esmoreceu apesar da manhã bastante ensolarada. Centenas de bandeiras e faixas balançavam à espera do Santo Padre: Itália, França, Estados Unidos, Irlanda, Argentina, Colômbia, China, Camarões, Portugal, Espanha, dentre outras, sem faltar, claro, a presença forte do verde e amarelo brasileiro; dezenas de países representados na forma de grupo de padres, freiras e turistas que viajaram de toda parte para acompanhar o último ato público. 

A chegada de Bento XVI no papamóvel gerou comoção e muitas palmas. Primeiro, o pontífice passou pela praça, em frente à basílica, depois passou no meio, gerando correria entre o público e um mar de máquinas fotográficas e celulares tentando conseguir um flash de Sua Santidade. Jornalistas do mundo inteiro passavam de um lado para o outro, tentando o melhor ângulo e caçando entrevistados. As câmeras se amontoavam no alto dos telhados de imóveis que ficam próximos ao Vaticano. Durante a audiência, mais emoção e palmas, e a certeza de que os fiéis em todo o planeta compartilham da esperança de Bento XVI no futuro da Igreja Católica.

DIEGO BORGES
Editor do Diário On Line

150 mil fiéis dão adeus a Bento XVI
Católicos chegaram cedo à Praça de São Pedro para acompanhar a última homilia de Joseph Ratzinger como pontífice FOTO: REUTERS
Sob um sol brilhante e um céu azul, a praça foi tomada por cerca de 150 mil peregrinos e curiosos. Uma multidão vinda de toda a Itália e do exterior começou a lotar a ampla praça no começo da manhã de ontem.

Muitos seguravam cartazes agradecendo ao papa e lhe desejando boa sorte. "Estamos todos ao seu lado", dizia um deles. "Ele fez o que tinha de fazer na sua consciência perante Deus", disse a irmã Carmela, religiosa italiana que vive ao norte de Roma e foi à capital com outras freiras e com membros da sua paróquia. A romana Carla Mantoni, 65 anos, considera que o papa "foi muito humilde por fazer isso".

"Ele foi um desastre. É bom para todos que tenha renunciado", disse o australiano de ascendência irlandesa Peter McNamara, de 61 anos, que afirmou ter ido à praça para "testemunhar a história".

Brasileiros
Na multidão, havia muitos brasileiros. "Para nós é algo único. Não acredito que estou aqui. Papa é sempre papa", disse a hostess Carolina Bertrand, de 28 anos, que mora em Roma há 5.

"Foi um discurso emocionante", disse a fortalezense Patrícia Cintra, 31 anos. Ela foi morar na Itália há um ano para acompanhar o marido, que mudou de País a trabalho.

"Dava para ver que ele estava muito emocionado, sentimos que ele está triste com todas as críticas que as pessoas estão fazendo. Penso que apesar de que possa haver política envolvida também, se ele ocupou esse cargo, foi porque é a vontade de Deus. Ele foi um papa muito bom, e espero que o próximo também o seja. Foi um privilégio poder estar aqui nesse momento, e receber a bênção dele", afirmou a cearense.

Para Maria Madalena Inácio, de 65 anos, o que marcou a cerimônia foi a emoção. "Estou muito emocionada. Essa praça está sempre cheia nos últimos dias, todos emocionados, correndo para estar aqui", disse ela, que é empregada doméstica e mora na Itália há 27 anos.

Missa em Fortaleza
A Comunidade Católica Shalom, que foi reconhecida pelo papa Bento XVI, em 2012, por meio do Pontifício Conselho para os Leigos, dedica esta quinta-feira como um dia de gratidão ao pontífice. A instituição conta com missões em 64 cidades no Brasil e 18 países.

Para a data está programada uma missa no Centro de Evangelização Shalom da Paz (Rua Maria Tomásia, nº.72, Aldeota), às 19h. Mas a movimentação acontece desde cedo acompanhando os últimos momentos do pontífice. 

FONTE:diário do nordeste
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